Obscurus é sobre dor

o obscurial Credence Barebone



Andar cabisbaixo de quem foi forçado a obedecer através da dor, de ombros retraídos pelo medo da fúria do opressor. Olhar triste de quem sofre e não tem voz, mas busca por respostas, por um propósito que faça tudo ter sentido. É dessa forma que eu percebi Credence Barebone (Ezra Miller), bruxo norte-americano apresentado em ‘Animais Fantástico e onde habitam’ (2016), primeiro de cinco produções que expandem o universo de Harry Potter.


Credence foi adotado por Mary Lou Barebone (Samantha Morton), líder da Sociedade Filantrópica Nova Salém, grupo anti-bruxaria não-maj existente em Nova York. A pastora sucumbida pelo fanatismo abusou psicológica e fisicamente do bruxo por anos, fazendo-o suprimir sua magia, o que ocasionou no surgimento do obscurus.


“Antes de os magos irem para a clandestinidade, quando ainda estávamos sendo caçados por trouxas, jovens bruxos e bruxas às vezes tentavam suprimir sua magia para evitar a perseguição. Então, em vez de aprender a controlar seus poderes, eles desenvolveram o que foi chamado de Obscuro.” – Newst Scamander, explicando a Jacob Kowalski +info


Entender o surgimento do obuscurus é falar sobre dor, já que surge do trauma associado ao uso da magia, que é algo intrínseco ao bruxo. Credence viu-se obrigado a reprimir o que é e negar o seu dom. Por conhecimento ou não dos poderes de Credence, Mary Lou aprisionou a verdadeira identidade do bruxo e amordaçou sua busca por informação e referências. Todo o mal feito ao personagem deriva do preconceito, desrespeito e intolerância da pastora, o que levou ao personagem se tornar um obscurial.


Credence mostra em seu olhar triste e vazio como a agressão psicológica é tão venenosa e corrosiva quanto à física. O bruxo tem o seu mundo deformado pelo ódio flamejante de Mary Lou e sua magia suprimida com tanta dor ao ponto de desenvolver uma força mágica parasita que o consome e pode destruí-lo.


Além da minha reflexão poetizada, trago a análise do psicólogo Vagner Nunes sobre o personagem e as questões que o envolvem:


Vagner Nunes | Psicólogo

"Elaborar um pensamento acerca do personagem Credence Barebone é tecer vias possíveis de compreender a existência de milhões de indivíduos que têm o seu potencial suprimido por diversos fatores psicossociais. Não posso afirmar que esse é o melhor caminho de compreender a existência do personagem, entretanto, ao conversar com os meus botões fui tomado de assalto pelo conceito de introjeção, cunhado pelo psicanalista Sándor Ferenczi.


A introjeção é o processo pelo qual o indivíduo começa a desenvolver a sua personalidade, pois é por meio dela que se inicia a aprendizagem e compreensão do mundo. Todavia, esse processo também pode ser nocivo ao desenvolvimento do ser, visto que ele introjeta a cultura; os costumes; a religião e o modo de ser que não o pertence. A partir desse momento inicia-se o processo de dor; de sofrimento.


Esse processo ocorre com Credence, pois o meio social (sua madrasta) vai modelando a sua existência, lhes dizendo o que deve ou não fazer. O personagem introjeta esses conteúdos e os integra à sua personalidade como se fossem verdades absolutas, e aí inicia-se o processo de adoecimento, pois essas verdades são incongruentes com a sua existência, com a sua forma de ser. Nesse momento, é possível fazer um paralelo com a vida dos homoafetivos, criados em lares evangélicos, que introjetam a ideia de que ser homossexual é pecado; sujo.


A magia faz parte da existência de Credence, é a manifestação da sua espontaneidade; autenticidade. Portanto, a morte de um obscurial, quando criança, simboliza a morte da espontaneidade. Esse é o processo do personagem, a busca pela sua espontaneidade."


Para colaborar com as reflexões sobre Credence Barebone, obscurial, sentimentos e a saga Harry Potter, trouxe também aspas de dois bruxos que fazem a magia acontecer para bruxos e trouxas:



Mocca Fonseca | MagicZoo

Mocca Fonseca | MagicZoo

"Ter uma identidade não é apenas a questão do que você se torna, mas também do que te entorna ou seja, daquilo que está em torno de você, que está a sua volta. Ninguém é feliz sozinho, toda e qualquer pessoa precisa de alguém para tal feito e Credence é uma forma de exemplificar isto. Um garoto inseguro, sem esperanças e amedrontado cresceu sem amor de uma família com acusações maléficas vindas de tantas pessoas que o rodeiam e assim tornou-se um obscurial.


Trazendo esta dinâmica do filme para a realidade, isso acontece com muitos jovens que vivem não apenas a margem da sociedade, mas que crescem sem família, sem apoio e sem amor. Dessa forma, acabam tomando rumos errados, assim como conhecendo pessoas e sendo influenciados por elas. Partindo deste pressuposto, temos um personagem que alimenta a esperança de Credence da pior forma, alimentando toda raiva e ira que o obscuros, agora controlado-o exerce dentro dele.


Rowling sabe como levar para dentro dos seus filmes problemas reais com maestria e acredito que essa nova relação, existente em 'Animais Fantásticos 2', tem um ponto de vista ativista. Ela busca abrir os olhos da juventude atual sobre a importância em buscar e construir uma identidade. Sendo feito através dos seus sentimentos próprios e dos sentimentos depositados a eles, por aqueles que o rodeiam."



Felipe Volponi | VolpsTv

Felipe Volponi | VolpsTv

"A falta de amor em uma pessoa comum traz estragos irreparáveis. A busca dele pela família é uma busca por amor, coisa que ele nunca teve. Ele se dispõe a morrer nas mãos de KAMA, mas antes, como último desejo, ele implora pela verdade.


Credence é um personagem construído com carência em vários sentidos. Foi usado muitas vezes pelas pessoas, e procura desesperadamente pela verdade sobre sua origem."



Ser escritor é tornar a vida poesia. Sendo assim, finalizo a postagem com um poema inspirado em “Credence Barebone”:


ame-se, não seja obscurial


Existe um caos dentro de cada um,

pintura de luz e sombra, contraste de gelo e fogo.

São florestas de memórias, montanhas de desejos

e rios de sentimentos.


É preciso explorar seu universo, contar as estrelas

e mergulhar para dentro.


Assim é possível ver as formas e cicatrizes,

entender as metamorfoses e auroras.


O autoconhecimento semeia amor

e florescer é ser beleza em rosa com espinhos de dor.


Amar-se é não deixar a maré de ninguém afundar

seu barco em uma escuridão de sofrimento.


Atacar o outro é fácil, mas coragem é abraçar

o caos que existe dentro de si.





O que você acha do personagem Credence Barebone e sua relação com os sentimentos e a dor?


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